sexta-feira, 8 de março de 2013

quando a tristeza volta das compras e lhe tráz lembranças.


E u tava numa fila pra ouvir um rock. E eu odeio filas. Aliás, eu não gosto da maioria das coisas e tento fugir delas. Só que existem situações onde você não tem muito que fazer a não ser enfrentar filas.  A vida te testa o tempo todo e na maioria das vezes não te resta muita coisa a não ser combatê-la na marra. Em alguns testes a sensação é a de que ela te coloca numa prancha de navio em pleno alto mar cuma espada pontiaguda espetando teu rabo. E ela diz: “Vai, bora, anda.” E você não tem muita opção e acaba se jogando na água com tanta mágoa e sangue nos olhos, com tanto ímpeto e rancor, que os tubarões famintos que aguardavam o banquete percebem que não vai dar pra eles e batem em retirada.  E você fica boiando sozinho enquanto o sol frita tua cuca e te faz ter miragens e o ser humano mais próximo se encontra há pelo menos centenas de quilômetros dali. E isso te faz se sentir em paz. Você até arriscaria um papo com os tubarões caso não tivessem fugido. E é essa a impressão que fica, uma espécie de leque de testes lhe dando bom dia quando você ainda tá bocejando.
Mas eu tava numa fila e a cabeça distante. E eu comecei a cogitar a opção de voltar pra casa. E o fato de odiar filas fez com que essa opção começasse a ganhar cada vez mais votos de meus demônios internos. Eles sacaram que se eu entrasse naquele inferno seriam chutados e pisoteados como baratas saindo do bueiro e foram humildes em sacar que não era uma boa ideia, não pelo menos naquela noite, o combate direto franco. Talvez já tivessem sido tubarões um dia. E então eles se uniram e começaram a votar a favor da opção de voltar pra casa. Eles também devem odiar filas. Ninguém gosta. E era uma troca justa sair de uma fila e cair na cama.
Mas a noite não tinha acabado e a votação começava a ficar equilibrada, enquanto, à minha frente, talvez com a intenção de apimentar qualquer coisa que fosse, duas garotas se beijavam alucinadamente. E os carinhas que estavam ficando com elas se olhavam empolgados. Talvez eles tivessem chances de protagonizar cenas dignas de filmes pornôs, destas que habitam a mente da maioria dos homens. Mas era nítido que eles não passavam de dois bundões compondo cena. E as minas tavam mais se beijando numas de querer chocar. Elas não tinham desejo no beijo, não estavam alimentadas cuma espécie de fúria, de vontade uma na outra. E eu senti pena das duas. Dos quatro. E comecei a olhar em volta e me deparar com uma espécie de jardim de almas que vagavam. E me perguntei o que fazia ali. A mente fervilhando, sem aquela garota, me juntando a uma dezena de imbecis que não conseguem se olhar no espelho sem se sentirem fracassados e buscando uma espécie de vitória nos outros.
Muita pena. Senti isso mesmo, muita pena. Me vi sem razão e tentei procurar alguma em cada passo que davam. Olhei em volta e me limitei a assistir o desempenho pífio das minas que continuavam se beijando e tive a mesma empolgação de quem passa a madrugada toda assistindo a uma partida do campeonato ucraniano de peteca.

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