Tá certo, tá certo. Tudo bem. É por aí mesmo. A chance de vocês vencerem é enorme, contudo, enquanto tiver forças para levantar copos – muitos – e pulmão para soprar fumaça na cara de vocês, “ainda terão que me engolir”, como já dizia aquele velho Rasputin. Enquanto ainda descobrir meu reflexo patético e cansado, não descanso. Depois, sim.
Talvez, um dia eu canse desta merda toda e me dê por vencido. Talvez, chegue o dia em que meu espírito se encontre em frangalhos, cabisbaixo, inerte, travado de pó e incapaz de qualquer reação. Aí sim, poderão bradar uníssonos a vitória.
Abismados, irão me ver atravessando velhinhas, usando sapatos, lendo a bíblia, Dan Brown, Paulo Coelho, pagando tudo em dia, tendo advogados e engenheiros como exemplos, ouvindo axé, pop, indo ao cinema, vendo filme pipoca, tomando refri light, freqüentando academias, correndo na Lagoa, acreditando em casamentos, não traindo, pagando impostos, chegando cedo no trabalho, levando filhos ao Corcovado, sorrindo nas fotos, votando, fazendo fofocas, tendo um poodle; e branco, casa em Araruama pra passar Reveillon e Carnaval, vendo novelas, aliás, vendo TV. Vocês vão ver, vou me vingar. Voltarei ao Orkut, irei à shoppings, pagarei estacionamento, entendendo que o governo não mede esforços em prol da gente. Matricularei meus filhos no judô, inglês e natação. Comprarei um videogame original, afastá-los-ei de qualquer tipo de leitura, presenciarei missas, não comerei carne vermelha no tal dia santo, enfrentarei filas, irei ao mercado, darei esmolas, participarei de rifas, não ficarei bêbado, não buzinarei, não me aproveitarei de moças sem consciência, puxarei saco do chefe, ou melhor, terei um chefe, usarei o Excel, usarei blusas “NO STRESS”, não usarei drogas e sei que álcool não é uma droga. Torcerei pelo Rubinho e pelo Flamengo. Che, Bukovski, Bortolotto, Beatnik, Raul Seixas, Leminski e similares serão palavras proibidas perto de mim. Estudarei pra concursos públicos, não subordinarei policiais, não terei amantes, estacionarei em locais proibidos, usarei paletós e....
Nesse dia, só pra fuder com tudo, darei trégua nos indagos a teu Deus. Quem sabe, nesse dia, repousarei as mesas de boteco e copos do alívio, e me juntarei a todos vocês cantando com a mão no peito o “quão orgulhoso estarei”.
Aí, empunhem seus flashes, saboreiem mais uma entrega e degustem mais um dissabor amargo sem nem necessitar de aviso prévio. Saberão, pela vasta experiência, distinguir um tolo lutador – em vão – de um orgulhoso fracassado. Tocarão o hino de alguma coisa e clamarão o futuro das coisas, graças ao que insistem em afirmar a todo momento, poderosos sábios.
Mas saibam que farei questão de avacalhar o evento. Dançarei pelado presenteando todos com a visão do inferno, mijarei gargalhando sarcasmos em vossa bandeira e cuspirei desdém na fuça de geral. No retrovisor, verão centelhas e fagulhas explodindo e estalando audácias que soarão incógnitas, causando a porra de um sentimento com o qual vocês não sabem lidar, primo bastardo do receio: medo. Precaução será uma palavra boa e os olhos atentos pode ser uma boa saída. Mas relaxem, o suspense faz parte de qualquer passo falso dado dentro de uma sociedade. Não se assustem, nada fora da comum e superior a massa de bolo asquerosa e conjunta que representam.
De qualquer forma, façam suas apostas sem medo, sabendo que a porra do crupiê e as câmeras estão a favor de vocês. E aplaudam meu esforço. Será singelo, porra.