terça-feira, 3 de janeiro de 2012

dias noturnos e suas febres de 40.

Uma garota bonita passa chorando. Bem discretamente, mas eu percebo que ela tá chorando aquele tipo de choro quieto e escuro de quem não quer ser incomodado. Fico tentando adivinhar o motivo das lágrimas. Se foi algum carinha, se é lance de família ou se é uma dessas merdas que sempre tão testando a gente coa justificativa de aprendizado. Um cara para no sinal vermelho guiando uma dessas  pick-ups potentes que faz com que seus donos sintam-se num patamar mais elevado que os demais. E ele olha com desdém pro rapaz que anda maltrapilho pela calçada. Só que este maltrapilho carrega consigo uma pistola .40 na cintura e a vida não lhe deu muitos motivos pra que ele pense muito caso queira usá-la. E se por ventura ele desejar usá-la, de nada vai adiantar a potência do motor do veículo. A rua nunca deu mole pra quem acha que tá melhor que o próximo. Faz um calor insuportável que faria até o diabo desistir de planos mirabolantes nesse final de ano. É a época do ano em que mais acontecem suicídios. Sei disso porque também tenho vontade de ir embora quando as náuseas causadas por essa enchente de gente sorridente e feliz vêm à tona. Meu coração palpitou há minutos atrás e me fez ter medo. Talvez ele também tenha tido vontade de se suicidar. Talvez tenha cansado de todo o descaso até aqui. Mas ele segura a onda e eu inacreditavelmente agradeço. Joe Cocker sopra no meu ouvido alguma coisa sobre o amor aprisionado, mas eu lembro que o Dylan é o único que me entende bêbado quando afirma que tá tudo certo apesar da despedida. Alguns confundem isso com falta de amor - geralmente são as pessoas que morrem primeiro assim que um incêndio começa.
É Dezembro e as pessoas seguem felizes e alucinadas prestes a cometer loucuras em nome de algo que nem se lembram mais enquanto eu apenas desejo que as lágrimas daquela menina tenham cessado. É tudo tedioso demais pra que as tristezas sejam assim guardadas pra sempre.

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