quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Relações de subsolos e as decepções que a gente causa durante a vida.


Eu fui dormir pensando em planos mirabolantes de sanar minhas contas. Eu lembro que elas batiam e que davam sim pra ser resolvidas. Acordei sem lembrar de porra nenhuma de plano algum. Aliás, fui acordado: “ Amor, acorda, vê se chega cedo no trabalho.” Puta intenção boa, nunca duvidei. Mas “ foda-se”, pensei. Tava com sono pra caraleo. Cochilei 5 minutos que na verdade foram 45. Levantei na marra, a água gelada porque o aquecedor pifou. Visto a mesma calça de sempre – depois que engordei, perdi todas – e não encontro camisa alguma – depois que engordei, perdi todas. O jeito é apelar pralguma camisa do meu coroa que só gosta de tamanho GGGG. Pego a “menor” e ponho. Me sinto uma bola, uma empada. Saio à rua atrasado e voado. Ando fraco, frágil, não sei definir o porquê, mas ando. Ando estranho, passando por situações nunca passadas, e a falta de experiência nisso tudo me faz ficar assim. Vontade de chorar, não sei bem o porquê. Ando presenciando complôs, que apesar de serem pro meu bem, que me deixam coa sensação de desrespeito. Bola pra frente, vamo seguir. A tristeza segue nos olhos, a indecisão na cabeça e o relógio não me fazendo esquecer da hora que já passou. Meu busão demora pra caraleo pra passar, papo de 30, 40, 50 minutos entre um e outro. Já tô no ponto há uns 25 minutos e a sensação é de que todos os passageiros dos 340 ônibus que já pararam no ponto me olham como se gritassem: “ó o gordinho com a camisa do pai!!!” Já nem ando esquentando coas coisas que antes me faziam penar. Acendo um cigarro e olho pro ap vazio do outro lado da rua e lembro que tenho que procurar um AP barato pra morar com a minha namorada-esposa-mulher que tá grávida. Meu busão vem lá longe e já calculo a hora – atrasada – que chegarei no trabalho. A tristeza segue nos olhos, mas eu ando disfarçando bem, olhando sempre pra baixo, e acho que tenho me saído bem com os sorrisos até aqui. O filho da puta me passa direto, me ignora, nem ameaça pisar no freio. Uma sensação de impotência, de fraqueza, de revolta, de ódio me toma conta. Ainda tentei entrar entre 2 ônibus e um táxi pra obriga-lo a parar, mas foi em vão, sofri um buzinaçõ e dois xingamentos que me fizeram desistir. Quase 40 minutos no ponto pra ser ignorado. Minha vontade era correr atrás daquele motorista corno e falar: “ Porra, mermão, eu sei que as coisas não andam fáceis, mas os outros também dependem de você, infelizmente. Se eu pudesse, eu não precisaria de ninguém e nem te atrapalharia, mas não é o caso, porra. Tu quer me fuder? Tu imagina se tua esposa tá cum filho teu e na hora do parto o médico resolve ir jogar pac-man com o amigo e simplesmente te ignora??? Imagina sua filha precisar de uma ajuda e neguinho faz a mesma coisa que você fez??? Tu já parou pra pensar seu filho da puta sem mãe? Já? “ Mas é tudo fruto de uma revolta mimada e bem feita. Mas a verdade é que venho me sentindo assim ultimamente: desprezado. Ninguém mais quer saber de nada. Ninguém me pergunta como eu tô. Ninguém entende o que tenho passado. E por mais que pros olhos dos outros isso seja algum tipo de mimo, o que eu discordo embora respeite, eu sei que tem sido barra. Tenho tentado seguir na boa, com o semblante calmo e de que tá tudo bem. Mas a verdade é que não tá bem assim. 

Eu sempre disse que meu jeito de gostar é meio torpe. É estranho, eu tô ligado, mas eu sei o que eu sinto. Aliás, só eu sei. E é algo forte e intenso. É uma puta duma admiração e orgulho. Mas também pode ser estranho aos olhos dos outros, eu entendo. A impressão que sinto é que causei uma regressão na vida dela. E agora ela tá grávida e eu me sinto incapaz de ser uma pessoa à altura de alguém que eu desejaria a ela. Se eu pudesse optar, escolheria alguém melhor que eu pra ficar com ela. Um cara melhor que eu, mais homem, menos irresponsável, menos moleque, que possua uma condição que não o deixe se perder por aflições, alguém que realmente pudesse ajudá-la e não causar mais transtornos e preocupações como eu causo. Pralguns talvez isso soe como tirar da reta, talvez até seja o inconscientemente, mas pra mim isso é a porra dum amor imenso. Alguém que quer torcer e vibrar de longe, mas que se sente incapaz e inapto para atuar caso seja escalado. E eu ando assim, frágil, fraco, sem forças, passando por coisas que nunca passei, mas também tentando encará-las na boa. 

Tem gente que gosta de desafios. Eu nunca fui desses. Pelo contrário, sempre fiquei olhando o mundo se matar da janela, não querendo participar de batalha alguma. Nunca existiu nada lá fora que me fizesse querer entrar em qualquer espécie de disputa. Meus maiores objetivos sempre foram internos. Meu maior troféu, se é que no meu caso podemos falar em conquistas, foi tentar entender como funciona isso tudo. Tentar entender o mundo e a cabeça das pessoas. Mas fui vendo que as atitudes não condiziam com o que era dito. Você tem noção do estrago que isso pode fazer na cabeça de uma criança? Não, você nunca parou pra pensar nisso. Porque de certa forma eu nunca tinha me identificado com a maneira com que tudo foi me posto. Eu entendia cada vez menos. Eu nunca tive vontade de participar dessa vida que era vivida pelos outros. Particularmente não me interessava. Então eu comecei a tentar entender a estratégia do jogo pra poder saber quando poderia conseguir entrar. Porque por mais que não me interessasse, eu não tinha outra alternativa. A gente foi criado pra vencer, fomos doutrinados e domados de um jeito que não nos resta outra alternativa a não ser entrar no ringue e tentar sobreviver. O que cada um de nós faz desde que acorda?? Foi quando eu percebi que jamais ganharia troféu algum. Que nenhuma medalha me seria dada.

Foi quando resolvi ir me afastando de toda essa brincadeira sem graça onde não existia nenhuma prazer real e da qual todos saíam com os joelhos ralados. Talvez há tempos eu seja uma carta fora do baralho. Alguns ainda conseguem ficar na manga, como surpresa, truque final, sei lá. Mas tem tempo que eu ando dentro da caixa esquecida num canto qualquer. Talvez isso tudo tenha sido fruto do que nada plantei. Eu pisei no próprio jardim ao invés de regá-lo e agora tô reclamando de tudo. Talvez eu seja o maior errado nessa história toda. Só me resta um brinde.

Mas tudo isso vai passar. “ Jesus te ama”, foi o que li naquela notinha fiscal de gelo que comprei no natal. Isso não me causou nenhum conforto, mas no fundo eu sei que tudo vai passar e que em breve eu vou acordar com o peito estufado, a barriga flácida, a pose marrenta e no rosto uma espécie de certeza de vitória que eu não farei a mínima ideia de onde ela surgirá.

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