Em um leito de hospital qualquer, com um profissional qualquer, um paciente qualquer, em um dia qualquer, em uma hora qualquer, e a qualquer momento...
- Você é apenas um estagiariozinho de merda, frouxo e cagão que não me inspira confiança alguma. Me tira desta bosta.
- Senhor, por favor, tente descansar.
- Eu não tô cansado, porra. Eu tô é deitado nessa merda dessa cama há muito tempo. Porque você acha que tô cansado?
- O senhor esteve em coma durante quarenta dias. O senhor quase foi a óbito, e se não foi, agradeça seu corpo que trabalhou sem parar esse tempo todo. Por isso o senhor precisa repousar e aguardar o resultados dos exames.
- O quê? Quarenta dias? Que merda é essa? Você tá de sacanagem comigo, garoto...
- Senhor, por favor não se exalte. O senhor precisa...senhor?
- Quarenta dias, muleque? Caralho, quarenta dias??? Você sabe o que são quarenta dias vegetando? Não, você não deve saber. Puta que pariu, quase dois meses perdidos.
- Após o resultado dos exames é que saberemos o que prescrever pro senhor. Podemos liberá-lo após alguns dias ou, dependendo...
- Dependendo uma ova, porra. Morri durante quarenta dias e, sabe-se lá porquê, deus ou o capeta, ou são Pedro, ou qualquer porra desses santos que vocês acreditam e batem palmas, entraram num acordo e resolveram me mandar de volta, me dar uma segunda chance, e você me vem mandando esperar mais, muleque?
- Mas senhor...
- Que senhor é o caralho. Para de ficar me chamando de senhor o tempo todo. Parece a porra de um pedinte pagão. Eu tenho quase a tua idade. Senhor, senhor, senhor. São essas merdas que ensinam hoje em dia nas faculdades? A chamar os outros de senhor, senhora, a falar gentilmente e enfiar o rabo no cú quando ouve alguma ordem? Senhor é a puta que te pariu. Tô de saco cheio. Me tira dessa merda...
- Quando o resultado dos exames sair eu juro...
- Quarenta dias?? Peraí, porra. Que dia é hoje???
- Domingo.
- Que dia do mês, porra? Já entramos em Dezembro?
- Domingo, 04 de Dezembro...
- Tu tá me sacaneando. Você tá de sacanagem coa minha cara. Você tá me gozando. Me dá um calendário, qualquer merda. Me dá seu celular que eu quero ver.
- Aqui, vê só.
- O quê? São quase duas da tarde??
- Sim, senhor. O resultado dos exames deve sair dentro de...
- Enfia os exames no seu cú, garoto. Me tira dessa merda. Tira essas porras desses fios de mim. Onde estão minhas roupas e meus documentos?
- Onde o senhor vai? Não pode se levantar assim não. O senhor ficou quarenta dias...
- QUARENTA DIAS!!! Vegetando quase dois meses!!! Um pedaço de carne sem utilidade alguma. Quarenta dias, muleque. Nesse tempo todo o mundo fez tudo que tinha que fazer. As pessoas dançaram, beberam, tiveram tempo de trepar por aí, fez sol, choveu, pessoas morreram, caíram, levantaram, você deve ter tocado as suas punhetas, eu fiquei ausente esse tempo todo, quase não volto, e agora que tive a porra de uma chance, você quer que eu espere a porra de uns resultados de exames que vão decretar meu fim pra sempre aqui nessa merda de lugar? Porque você não enfia no seu cú suas horinhas de estágio?
- Mas o senhor não pode...
- Senhor, senhor, senhor, senhor, tenha paciência, garoto. Para com isso. Vai lá fora olhar a bunda de alguma enfermeira, não enche meu saco. Hoje é a final do Campeonato e meu time vai jogar. Você entende alguma coisa de futebol? Ou apenas punheta e jaleco, hein? Eu vou viver o resto que tenho pra viver. E nada nesse mundo vai me fazer perder esse jogo.
- Não posso permitir isso.
- Vá se foder, muleque. Aí, ó, duas e oito. Tenho que ir agora.
- O senhor não pode...desculpe. Você não pode se emocionar ou...
- Rapaz, presta atenção. Você acha que um sujeito que dormiu quase dois meses, acenou pralgum deus, passou a mão na bunda de alguma diabinha gostosa, beijou o pé do capeta, teve visões de cachoeiras, lagos, jardins, galpões, viu carrancas que faziam um merdinha como você se borrar todo, teve alucinações de touros imensos, ratos imersos que o impediam de voltar à superfície, se deparou com estranhos barbudos de olhos raivosos segurando tridentes e arpas sujas de sangue, e que durante esse tempo todo não deixou de trincar os dentes e cerrar os punhos, vai ter mesmo medo de comemorar um gol de futebol?? Eu tô de volta, garoto. Eu ganhei uma segunda chance. Eu fui absolvido. Você sabe o que é isso? Eu tô imune. Eu tô no lucro, meu jovem. E eu preciso comemorar e não vai ser um putinho cheirando a leite como você que vai me impedir. Hoje é a final do campeonato de futebol e meu time vai jogar. Seremos campeão e eu vou testar meu coração como nunca testei a vida inteira. Eu sou o verdadeiro campeão, muleque. Agora sai da minha frente...
E deu as costas ao jovem enfermeiro que, estupefato e incrédulo assistiu, fraquejando, esmurrar a porta do quarto e sair...
Pensou em chamar a segurança, mas quando visualizou pela janela o ex paciente saindo do hospital sozinho, convicto, sorrindo à toa e o agradecendo através de gestos, lembrou de seu avô. Tinhoso, ranzinza e ídolo de infância, à beira da morte, implorando pra ir embora, pra que desligassem os aparelhos e o deixassem ir em paz, mas que a família, inclusive ele, relutante e por puro egoísmo em não querer se despedir do velho e, principalmente, em não querer respeitá-lo, o fez lutar com todas as forças pra que não desistisse de viver, o que resultou sequelas dolorosas, talvez mais dolorosas do que todas em que passou pela vida.
Então, com um leve sorriso de admiração e compaixão, o deixou seguir com seus desejos. Lembrou de Rain Dogs, do mestre Tom Waits, e agradeceu por, definitivamente, entender coisas que a maioria das pessoas levarima a vida inteira pra, quem sabe, conseguir compreender.



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