terça-feira, 25 de janeiro de 2011

cenas contemporâneas radicadas num dia de calor infernal

3 anos no máximo. Loirinha, cabelos cacheados e uma mochila rosa nas costas, destas de desenho infantil. Os pais, na mesa ao lado, conversavam sérios. Tomavam cerveja, mas sérios. Ao que parecia, eram separados e discutiam valores de pensão ou alguma dessas merdas que todo casal que possuem filhos e se separam precisam discutir. E foi aí que a minazinha saiu espevitada em direção a um pombo que pousou no limite da calçada com a rua. O pombo, como todo pombo, levantou vôo e deixou a garotinha na pista. Ou melhor, literalmente no asfalto, de cara pra ele. Um táxi que vinha pela esquerda numa velocidade razoável fez strike em todos os fios loirinhos e cacheados da minazinha que tinha pais tentando chegar a um acordo sobre pensão ou coisas do tipo. Uma freada em vão antecedeu o choque – e o estrago.



Como pode um pedaço de ser humano se transformar numa espécie de paçoca marrom em poucos segundos? Daí o rosa da mochila, destas de desenho infantil, se misturou com o vermelho do sangue e o marrom da pasta paçoquenta que restou da cabeça da minazinha loirinha de cabelos cacheados que...Desta vez o choque tomou conta dos pais,  principalmente da mãe. Desesperada, incrédula, imóvel, ficou ali, atônita, durante segundos eternos tentando entender e montar a cena que acabara de assistir. Imaginei que o assunto da pensão seria em vão a partir daquele momento.

Um velho saiu do táxi com as mãos na cabeça, balançando-a, talvez numa tentativa de transformar tudo aquilo numa espécie de visão ou sonho. Também em vão. Beijou a medalhinha com uma imagem sagrada que tinha no pescoço, se benzeu de forma automática e gritou: “Caraleo!!! Meu pára-choque!!!” Do outro lado da rua o ponto de ônibus lotado assistia à cena de camarote.

“Senhoras e senhores: vocês acabam de presenciar a mais uma das intermináveis tragédias que diariamente acontecem na cidade maravilhosa!!!”

Milésimos de segundos depois, a condução que vinha logo atrás do táxi, que não freou a tempo, e que esmigalhou o cérebro da minazinha de 3 anos enquanto os pais discutiam sobre valores de pensão ou essas porras que todo casal separado negocia, e que corria atrás de um pombo, também freou tarde demais, pois o motorista tava de ressaca de um churrascão que foi no dia anterior, onde ficou bêbado e foi trabalhar praticamente sem dormir, o que pode ser que tenha lhe tirado um pouco, ou a maioria, dos reflexos, e acabou acertando a traseira fazendo com que esse se deslocasse pra frente, amassando um pouco mais do que tinha sobrado intacto da minazinha dos pais que...

Tudo isso aconteceu em sequência, com milésimos de segundos de diferença. O pai da minazinha que fazia de tudo pra convencer a mãe, ex-esposa, ex-namorada, sei lá, cobrar uma pensão mais baixa no momento pouco antes do acontecimento, tentou confortá-la, abraçando-a, tentando dividir, compartilhar um pouco da dor da mãe, ex-esposa ou namorada, sei lá. Ela, em transe, chorava compulsivamente, vendo o corpo da filhinha de três anos, loirinha, cabelos cacheados – e que não eram mais cacheados àquela altura – parecendo uma espécie de empada ou massa de pastel, não importa. O pai, aproveitando do ocorrido chegou a pensar na economia que teria agora sem ter que dar pensão alguma. E chegou a fazer planos com os custos: viagens, festas, bebidas, mulheres, roupas, etc. Ainda, talvez achando que tinha tido uma boa idéia, emendou à mãe, e ex-esposa, namorada, sei lá; “ Calma, pô!!! Pensa na grana que cada um de nós pode guardar”. Mas não foi uma boa lábia. A mãe, ainda sem acreditar, fraquejando, olhando o corpo disforme da filhinha – que não era mais filhinha – de três anos, loirinha, cabelos cacheados, ameaçou um desmaio, mas foi segura pelo pai, ex-marido, namorado, sei lá, que falou baixinho no ouvido dela: “Pô, segura a onda pois você ficou de pagar a conta aqui no bar. Eu não sei tua senha...”

No meio do caos total, o motorista do busão, que tava de ressaca do dia anterior devido a um churrascão que tinha ido, chamou o velho que dirigia o táxi, e que ainda tinha a medalha com alguma imagem sagrada no pescoço, e disse: “ Aí, camarada, tu freou do nada, de repente, como a gente podemos negociar e solucionar este impropério?? “

Voltei a olhar pros pais da minazinha loirinha, de cabelos cacheados e perdi a continuação. Ao voltar o olhar pros acidentados, só vi o velho do táxi sentando a mão no motorista do busão, que ainda tava de ressaca e sem reflexo algum.

Não entendi muita coisa, mas ao menos deu tempo de ver a mãe ajoelhada no chão, ainda incrédula, e ver a marquinha de biquíni dela, assim como uma parte da calcinha vermelha pequena que ela usava e pensar: “ Puta merda, que rabo “

3 comentários:

Camila Reis disse...

ainda bem q seu texto é fictício, pois um pai de verdade jamais pensaria em tais coisas como economizar uma grana numa hora destas. um pai de verdade daria a própria vida! q triste pensamento...

Daniel Souza disse...

ficção, baby!!! pura ficção. alguns críticos jamais entenderão...

Céu disse...

Muito engraçado (exatamente por ser ficção, claro)!!
Tava com saudade disso aqui! Que bom que voltou...
Bjs!