sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ganchos de direita no vazio de um quarto escuro enquanto lá fora o mundo aplaude o mickey

Um amigo enlouquecendo. As chagas de um sujeito que insiste em morrer vendo o pai inflexível a negociações. Minha filha partindo. Minha mulher chorando. Um outro amigo em crise terminal. Outro fica internado até Outubro e o outro é retirado todas as noites derrotado pelo crack. Minha vizinha pentelha não para de reclamar do barulho de minha cadeira. Dos nervos, como diria Lísias. Não há nenhum triunfo na dor, essa é a verdade. A exaltação de quem ainda acredita no sofrimento como forma de redenção. Papo furado, talvez. Ando cansado dessa baboseira, embora esteja condenado a um certo tipo de infelicidade nada efêmera. Como é que era mesmo, Maria Lúcia? Mas não vou pular do sétimo andar, doçura. Nem vou dar tiro na cabeça e sequer beber até morrer. Meu ceticismo atingiu um tal grau que sequer acredito em suicídio. Vou só deitar na rede enquanto Noble Watts sopra o acorde inesperado, inusitado. E os fogos lá fora enlouquecem os pobres cachorros. A mim eles não enlouquecem, apenas aporrinham. E eu ainda consigo sorrir sozinho em meu canto. I Don´t make promisses. Eu aprendi que é de lei cumprir promessas. Yeah, man, yeah. Fico prosaicamente com meus blues e algum poema do velho Dylan. Ah, há dor demais no mundo.

Existe algo que pode ser desgaste da própria imagem. Quando você se olha no espelho e tem vergonha do que se transformou. Pratico o esporte do não escutar. Do fazer que não é comigo. Alguns chamam isso de cinismo. Eu prefiro achar que é algum tipo de escudo.

E isso elimina minhas vantagens?

Que tortura é essa a que nos submetemos diariamente?

Em nome do quê, esse privilégio de continuar fazendo de conta?

Percorro o mesmo trajeto em que termina na merda do mesmo destino. Não existe outro, tenho que lhe confessar. As entranhas magoadas e banhadas por old eight falsificado e pizzas de calabresa com bordas queimadas. Carrego o melhor e o pior de mim à larga escala industrial que me bombardeia enquanto o cachorro doente quer escapar sempre que arroto porcamente visando pequenos luminosos da Antartica.

Pobre fudido. No fim da estrada, reduto dos miseráveis, tem um prêmio e um osso pra você, meu velho. A alegria abissal que um recém-nascido sente com propriedade.

Alguns caminham atrás do paraíso. Outros apenas caminham por aí. A diferença é essa e, afinal de contas, não é um pecado tão grande assim ter algum tipo de fé.

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