terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Preparar para decolagem



E aí, um amigo me convidou pruma festinha de aniversário de uma amiga dele. Tava desanimado. Não tenho mais paciência pra festinhas de aniversários de terceiros e terceiros de amigos. Mas aí ele disse que me pagava uns chopps e que a aniversariante em questão tinha acabado de se formar – ou se tornar, sei lá – aeromoça. Contrariando a maioria, meu ânimo piorou. Muito gloss, sorrisos vazios, sorrisos sem face, donas sem sorriso, bundas sem conteúdo, muito laquê, escova, vestidos da moda, salto alto, futilidade, sotaque, muito porra escrota em poucos metros quadrados, nem de longe fazem parte da lista de coisas que me agradam. O único atrativo, confesso, eram os chopps que iriam ser pagos na cartela do amigo, mas, mesmo assim, o pensamento era dominado pela quantidade de gente insuportável que iria me cercar. A quantidade monstra de foras e comentários ácidos e cheios de ironias - que mal seriam captados ao destinatário - o que me faria crer que seria em vão girar a metraca e destilar picardias às afortunadas em cima de seus saltos.
- “Pago tua noite toda de chopp!!”, recebi como resposta do amigo, já desesperado pra que eu o acompanhasse na selva amazônica de maquiagens e bojos desesperados.
-“Porra, é assim que se fala. Amizade é pra isso. Me convenceu. Depois da agência, te encontro no bar do Antônio e agente vai lá.”
Mal vi que o dia terminou e que estava na hora. Encontrei o candango no bar, aquecemos as gargantas e pupilas e rumamos ao local.
- “São todos os chopps, hein. T-O-D-O-S! Se eu tomar whisky, cachaça ou conhaque, eu pago. Mas os chopss em minha cartela hoje, são por tua conta.”, fiz questão de reforçar.
Pra não perder muito tempo, vale apenas registrar que cada chopp era R$ 5,50 e que, quando dei por mim, a primeira linha do bingo imaginário que era minha cartela, já tinha ido pro espaço. Se o prêmio fosse por linha e não cartela cheia, poderia esbanjar requinte e sorte para os azarados de plantão. Meio zonzo, achei uma boa ir dar uma mijada e esvaziar a bexiga, afinal de contas, não é toda hora que um amigo lhe põe numa festa recheada de bundas, pernocas, coxas e similares e, o melhor, ainda te paga todos os chopps. Ó Deus, todo perspicaz, o que você anda guardando pra mim, hein? É muita boa vontade, toca aqui.
As caipirinhas, cubas, drinks coloridos e todas essas bebidas que mulheres frescas adoram dançavam no alto, sobre corpos modelados, preparados e treinados a vida inteira pra isso. Bando de robôs sob controle de pais pseudo-gestores de frustrações futuras. Enormes potenciais pra analistas e psiquiatras em formação. A música, por sinal, de péssimo gosto, embalava os esqueletos trôpegos e disformes diante dos espelhos super concorridos. Estava tudo entediante e se não fosse os chopps 0800, já teria ido pro bar dividir presença com os bêbados, porteiros e suas maquininhas de perder dinheiro.
Pra tentar fazer a noite acabar logo, fui pedindo os chopps de dois em dois. Enquanto um era bebido rápido, de forma compulsiva, o outro era saboreado. O projeto “Segunda linha: ANIQUILAR!!!”, já estava em processo. Restava uma apenas. E seria questão de honra completar todos os números da cartela, pra que nunca mais tivessem a audácia de me convidar pra eventos irrisórios de gente que faz hora extra aqui embaixo. A visão já cambaleava, as guimbas já queimavam meu dedo repetitivamente, quando, de repente, do nada, um ser aloirado, quase do meu tamanho, com um vestido meio de noiva branco, cheio de babados, sob seu salto, até discreto vale ressaltar, me sorriu. Obviamente não é necessário que eu conheça a pessoa pra conseguir identificar um sorriso bêbado. Pensei em me afastar, mas podiam achar que eu não gostava da fruta. E além do mais, eu também estava bêbado, o que já igualava a situação. Bêbado X Bêbadas sempre deram bons resultados. Let´s Go! Run!! Sorri de volta e pedi três copps.
- “Ah! Você está acompanhado?”. Deduziu na pergunta.
- “Não. São dois pra mim e um pra você.”
Ela sorriu tentando forçar uma timidez. Papo vai e vem, e descobri que era amiga da aniversariante e que também acabara de se formar aeromoça; Falou que era o sonho dela e que tinha morado na França. Grandes merdas, pensei. Mais uma daquelas patricinhas afoitas pra pôr pra fora suas aventuras soníferas e que acham ser motivo de orgulho. Comentou que há muito não bebia tanto.
- “Não conheço ninguém.” Comentou.
- “Eu também não. Vamos sentar ali”.
E entre chopps e bocejos meus, meu amigo chega acompanhado de uma morena meio índia, dona de um par de peitos fenomenal.
- “Nós vamos dar uma volta, tá afim?”
- “Claro.”, respondi. “Ainda não acabou minha sede.”
Quarenta minutos depois, três postos, sete latinhas e quatro cigarros depois, estávamos na Praia da Barra, mais precisamente na Reserva, local de logística ímpar e acesso gratuito para os corajosos duros e sem futuro como eu. Três e meia da manhã. A escuridão tomava conta do lugar enquanto eu tomava conta e marcava terreno com a mão, descobrindo cada centímetro daquela coxa grossa. Eu e ela atrás. Amigo e a índia peituda na frente. Estacionamos e ouço:
- “Eu e ela vamos dar uma volta na areia. Não demoramos.”
Como é lindo o amor, pensei. O cara carrega uma gostosa que esbanja na testa, piscando: sexo, sexo, sexo!!! pra Reserva e vai caminhar na areia sob o luar??? Há diversas maneiras de se comer alguém, é verdade. Algumas pessoas preferem o caminho mais longo, o da sedução, romantismo. Particularmente, acho balela. Prefiro o mais curto, bom pra ambos, paudurismo.
- “Cuidado que é meio perigoso. E vê se não vão pra longe. Qualquer coisa, tem como a gente ver vocês.”
- “ Xá comigo”. Okay, adoro a confiança de um homem que acha que vai transar. É sempre assim. Mas...
E ficamos a sós dentro do carro. Lá fora o mundo todo dormia, se drogava, prostituía, roubava, matava, e eu, na minha humildade, desejava apenas tirar aquela areia toda que escondia meu caminhãozinho. Aliás, desejava decolar sobre aquele corpo tentador da futura aeromoça. Minha turbina tava ligada e meu piloto automático sem freio, à mil. Eu queria arrancar aquele vestido, cair de boca nas torres gêmeas logo abaixo do pescoço, abrir aquele trem de pouso entre as pernas, manejar meu manche e conduzir toda a viagem por aquele caminho sem sinalização. Chegar aos céus, visitar Deus, tomar uma com São Pedro, traficar com os anjos. Eu queria sair de órbita e ouvir os gemidos das anjas batedoras de asas e coração. A nossa bebedeira rumava pra última latinha e nossos desejos já eram únicos. Como uma engenhoca precisa, minha língua destravava o pré-desfalecido corpo, dava sinal verde e autorizava a decolagem de nossas vontades. O destino era incerto. Mas quem se importava? Meu amigo, contrariando minhas ordens, já tinha sumido da visão, já devia estar longe, largando versos enjoadas e doces no ouvido da morena peituda que, a essa hora, já devia querer ir embora ou voltar pra dentro do carro e fazer festinha de comemoração comigo e com a loira. O vidro embaçava, no rádio, um som meio latino, cheio de requebrados, dava mais safadeza ainda ao corpo da impávida quase-francesa. As mãos já desnudavam as coxas, apertavam a bunda, a boca se dividia entre o pescoço, a orelha e o queixo. Uma mão dominava as costas e os movimentos, enquanto a outra passeava por aquele corpo como uma dondoca e seu poodle passeiam no jardim do éden.
- “Tem camisinha?”, ela perguntou.
Óbvio que não, seria a resposta. Na verdade sempre tenho, mas sei lá, devia ter soprado e feito uma bola ou trocado por um cigarro. Não lembro o destino do último pacotinho que morava na minha carteira.
- “Peraí.” Vou resolver isso.
Abri o porta-luva e a carteira do meu amigo saltou, lépida e assanhada, sabe-se lá, presente divino. E não é que uma camisinha majestosa reinava por lá?
Rapidamente, como malabaristas, trocamos de lugar, de corpo e, praticamente como integrantes do Circo de Soleil, nos vimos em êxtase, suados, ela de quatro, mãos na mala e o resto meu, e eu de joelhos, meio de pé. Desta vez, as mãos desempenhavam papéis diferentes: uma dava sonoridade à pele dela, enquanto a outra testava a elasticidade dos cabelos e fazia-se revelar diversas caras e sons diferentes por parte dela. O carro balançava, não se via mais nada do lado de fora a não ser uma luz vindo em nossa direção. Em frenesi, não dei muita bola, já tava bêbado e tinha que aproveitar aquele momento raro em que meu jovem mancebo ficava de pé. Nem percebi a luz aumentando, se aproximando. Notei um motor. " Um carro.", deduzi - e olha que tal dedução foi sozinha. Já me dividia entre as caras e bocas, o suor pingando, com a luz se aproximando cada vez mais após o motor desligado. Percebi um corpo em frente à janela. Um “toc” no vidro e um policial barrigudo, bigode ralo e inoportuno. Puta que pariu, anjo da guarda. Mas que caraleo, tanto crime, tanta morte, tanta violência pela cidade purgatória e você veio me aporrinhar?? Não to acreditando. A jovem aeromoça arriscou-se vestir, situação esta que só não se concluiu pois eu peguei os trajes dela e escondi sob os bancos da frente.
- “Pois não, seu guarda. Posso ajudá-lo?”
- “Atentado ao pudor, meu amigo. Conhece este termo? Violação das leis ou algo similar? Acho que podemos dar um pulo na Delegacia, concorda?”
Porra, segui não acreditando. Não é possível. Uma noite regada à cerveja gratuita, músicas péssimas, sorrisos fakes, corpos que podiam não ter cara, bundas que podiam caminhar sozinhas e que até justificariam qualquer atitude insana de um incauto qualquer, fumos, beijos, apertos, mordidas, chupadas, sussurros e, o artilheiro sedento por um gol, vindo de um mês sem atuar, sendo impedido por um bandeirinha cego de farda?? Porra, não é possível.
- “Eu sei seu guarda, estamos só conversando, estamos indo embora e é que...”
- “Você não está entendendo a situação, senhor. Estamos no futuro país das Olimpíadas. As regras mudaram. Não está mais sendo tolerável comportamentos como estes. Me desculpe, mas terei que rebocar...”
- “Não, seu guarda. O carro não é meu e nem sei onde meu amigo está. Podemos resolver de outra maneira?”
Sem muito titubear, a autoridade do futuro país das Olimpíadas, o exemplo que devia ser seguido, emendou:
- “Bom, tô vendo que você é educado e não justifica que eu faça com que nosso tempo seja perdido. Ajuda seu camarada aqui com o cafezinho e está tudo certo.”
Tô fudido, pensei. Tinha uns quatro reais no bolso. Mais nada. E agora? Que fazer? O pau duro dificultava o pensamento. “Cafezinho, cafezinho, cafezinho”, bombardeava minha cabeça. No instinto, abri o porta-luva e a mesma e serelepe carteira do meu amigo dançava pra mim, faceira e oferecida. Abri e uma notinha de R$ 50 veio parar na minha mão. Porra, roubei a camisinha e R$ 50,00 reais? Amigos são pra horas assim, carambolas. Não hesitei.
- “Tomaqui, amigo. Espero que possa ajudá-lo. Desculpe mais uma vez.”
- “Rapazinho, vou manobrar a viatura e na volta quero ver as janelas abertas e o motor ligado, ok?”
- “ Off Course, sir. É pra já.”
Ufa! Deus, misericordioso, obrigado por tudo. Pelos lapsos de inteligência, pela sagacidade, pela rapidez e astúcia com que me alimentas de decisões. Os anjos aplaudem, alegres e saltitantes, mais uma vitória da raça masculina. Mais um pré-jorrar e seus prazeres acompanhantes. A vida é boa, caraleo. Às vezes, é foda.
A viatura saiu e quando me preparava pra voltar ao batente, a minha viatura e minha autoridade ainda de pé, sustentando, se esforçando, dando o máximo de si, ouvi a porta do carona meio que se abrindo de forma ríspida e aquele íntimo som do jorrar da bílis, co-irmão do Raulllllllllllllllllllllll....
“Pronto”, pensei. Não falta mais nada. Noite perdida. Os anjos me sacanearam, mijaram lá de cima, bateram tambor com as imagens celestiais, rebolaram a dança da garrafa só pra me sacanear, Bukovski gargalha de mim, os dançarinos de axé que se foram ( tem algum? ) zombam, as anjas batem palmas orgulhosas e Deus petisca amendoim enquanto assiste de camarote mais uma queda minha. Foi tudo pra eu achar que a noite seria perfeita. Aquele corpo delicioso e semi nu colocava pra fora todo o líquido em excesso bebido. Ela estava roxa, azul, pálida, tonta, zonza, com a boca suja, enquanto tentava se recompor e, sem graça, me pedia desculpas. Disse que bebeu demais, e que, quando o guarda chegou, começou a ver tudo rodar, girar...
Eu puto. Possesso. Não queria acreditar nisso. Longe de casa, meu amigo a essa hora devia estar tentando ainda dar um beijo na índia peituda, meu amigo debaixo, mais inteligente que eu, ainda suspirava as últimas energias, doido pra alimentar aquele ser recém-europeu. Não é possível. Não mesmo. Logo hoje? Com um avião destes?
- “Desculpe, estou sem graça.”
De fato, a moça não tinha culpa. Foi educada e interessante a noite inteira. Estas coisas acontecem, é verdade. Seria escroto de minha parte condená-la. Eu mesmo, se não fosse acostumado com a bebedeira, já teria entrado em coma. Mal almocei e não comi mais nada. Minha janta foi uma dezena de tulipas de chopp. Imagina a mina, toda fresca, fissurada pra manter a boa forma, deve comer gelo, abaxaci e alface o dia todo. Vindo de outra cultura, onde nego é conhecido no mundo todo por colocar meia grama de comida no centro do prato e deixar o resto vazio. É compreensível, claro. Coisas como estas, acontecem. Mas, porra. Logo comigo, caraleo? O que eu fiz? Me comportei bem, não xinguei ninguém, kct. Não mijei fora do vaso, levantei a tampa, agradeci a cada chopp que o garçom me trazia, não mandei o DJ mudar a porra da música ruim, fumei só onde podia, não apertei a bunda das moças, não sarrei ninguém, não coçei o saco, não apalpei o pau, nada, nada. Fui um lord, tratei a moça como uma dama e, em troca, recebo isso??? Porra, não se faz isso com alguém que muda o comportamento e tem atitudes não-doentias. E, pra variar, acabou a cerveja, o posto mais próximo fica a, no mínimo, cinco quilômetros, e acabou o cigarro.
- “Poxa, responde. Estou sem graça. Fala comigo. Não sei onde enfiar a cara.”
- “Relaxa, baby. Faz assim: vai ali na frente, abre o porta-luva e procura um cigarro que meu amigo deve ter deixado.”
Ela fez direitinho enquanto exibia aquele rabo delicioso ainda com marcas da minha mão. Na volta, ainda sem graça, mandou:
- “Toma. Mas, me responde: Me desculpa? Nunca aconteceu isso comigo. Estou sem graça por ter quebrado o clima, estragado teu prazer. Queria poder fazer algo. Mas até pra isso, estou sem graça.”
Joguei fumaça pro alto, suspirei, olhei pro meu amigo, desta vez, meio barro-meio tijolo, havia se esforçado, coitado. Havia durado o máximo que pôde. Não tinha como crucificá-lo. Olhei-a nos olhos, o suor ainda brotava de nossos corpos, e decidi:
- “Vem cá, filha. Vou te perdoar, mas mostre algum talento. Abaixa aqui e só levante quando o dia clarear e tomar o leite de café da manhã.”
- " Mas acabei de limpar a boca. Deve estar um cheiro insuportável."
- " Relaxa, anjo. Onde você vai pôr a boca, não tem nariz."
É. A vida pode ser doce em determinadas horas. Fiquei fumando, relaxando e observando a lua. Foi quando vi um avião cruzar o céu e lembrei do quão bom é meu amigo, que neste momento, deve estar recitando poesias, falando de amor e enlouquecendo de raiva a frustrada morena peituda.

Um comentário:

Anônimo disse...

ahahhahahhahahahahhhhahhahahahhahhahahahahhahahahahahaha

não dá pra ser mais enfática que isso!
mto mto mtoooooooo bom!
dá pra imaginar tudo!
mto mto foda!
queria um curta dessa sua história!
queria você num bar com cervejas por conta de seu amigo otário e cigarros por minha conta!pra vc contar tudo o que conta na vida.

mas vc errou. as vezes "a vida" não é doce. ás vezes dá uma agonia ao engolir.
mas agente faz o que pode né, amor?

saudades imensas suas chuchu!

abracinho apertado!