
É que eu não queria, sabe? Tava meio inquieto, prevendo o fracasso com aquela situação. Mas logo eu, que sempre idolatrei desprezos e descasos para o alheio? Mas tudo bem, aceitei o chamado cômodo, com garantias de tulipas 0800 e petiscos pra dar gosto à boca e disfarçar o sabor/gosto do cigarro, e combinei. Ainda permaneci ereto, sem graça, não muito acostumado com aquela sensação superior e prazerosa de “eu hoje vou me dar bem”, ainda mais, vale ressaltar, que andava em uma época que o simples fato de não me foder já era considerado lucro, justamente, porque achava que aquele avião era presente demais pruma pista de vôo tão desmerecida e esmilinguida como a minha. Mas okay, mon cherrie, sigamos o desalinho da 12 apontada pra nossa cabeça intimando desenhos e desejos que nossas mentes maliciosas produziram e, na medida do possível, sigamos tentando fazer com que alguma linha escrita por nós se cruzasse. E, pessimista como estava, tentei degladiar e angariar fundos que me tirassem dali, não por medo ou insuficiência, mas, sim, por ter a quase certeza de que as expectativas geradas pela moça iam tropeçar no primeiro quebra-mola pós arroto que saísse de mim. É porque meu organismo me sabota o tempo todo. Sou incapaz de atitudes gentis quando feliz. Daí, sabia que aquele carinha insano e imbecil por quem a manceba se interessara, na verdade, não era eu. Eu sou muito mais sujo na minha essência. Muito mais safado, canalha, prepotente e manipulador do que aquele sorriso mediano que a encantara. Como falei, quando triste, encarrapeto, solitário, carente ou qualquer porra de sentimento que valha, me torno um ser educado, pé atrás, mão atrás, e até, vejam só, com o hipotálamo totalmente desativado, desconjurado e sem maldade física nenhuma na cabeça. Como dizer a tal que aquele ali diante dela não era o verdadeiro “ele”, ou o real “eu”? e que a verdade era de que eu não prestava? Planejei situações de fuga e seqüestros próprios com argumentos falidos, tentei convencê-la de que a idéia não era tão boa, de que estava frio, eu andava irritado, de TPM, mas foi em vão. Enfim, fui sincero e mandei a real de que a impressão que ela tinha feito do de cá, era errada. De que escrevo em maiúscula no meio da frase, pontuo de forma errada, vírgula pra mim é respiração e que as minúsculas me venciam nos inícios dos dizeres. Comentei sobre minha queda e fraqueza pro álcool, minha tara por livros, meu lado meio nerd e geek de ser, meu lado egoísta de desejar apenas prazer próprio, da pouca importância que tenho com a sociedade, de como to me lixando pras viagens è Europa e de como ando pouco me pouco me fodendo com a Amazônia e o futuro do planeta. Inarredável como todo ser do sexo feminino fica quando quer algo, ela se adiantou e informou o local de espera. Cansado e sem ter muita fé da mudança de planos dela, me fui. Prometi educação forçada, combinei comigo mesmo de que não iria comer com as mãos, de que não cruzaria os pés sobre a mesa, de que me comportaria e até falaria: “Vou ao toillete”, ao invés de “ Guentaê que vou dar uma mijada!!”. Meio nervoso, sentei à mesa e tentei relaxar. De início, uma água. Morta a sede, pedi um chopp enquanto, em silêncio, me fiz prometer que conhaque e cachaça não eram aconselháveis praquele momento. Outro chopp. Um fumo. Uns papos. E eu, sem graça, claro. Meio galã, falei de forma séria, não fiz piada sem graça, não fui escroto, não lamentei o fato dela ser executiva e nem fiz piadas com o tamanho do salto dela. Respeitei a maquiagem, tentei debater sobre esquerda, direita, sobre o DEM, me esforcei pra não cair em papos vazios sobre a violência, a atualidade, sobre Israel e, juro por qualquer coisa, nem cantarolei na mente um funk quando ela levantou aquela raba, putaquepariu, sensacional pra ir ao banheiro. Não olhei praquela da mesa ao lado que notou a dissonância da nossa mesa, quando, na verdade, eu e ela, a da mesa ao lado, combinaríamos muito mais e pela qual, eu não teria que fingir coisa que não sou. Fui todo certinho, talvez pela primeira vez na vida (porque até no nascimento, tiveram que usar fórceps. E aos quatro, na escola, roubava o mirabel do meu amigo menor e aos oito, no colégio de freira, fui convidado a não renovar matrícula em função do meu mau comportamento diante das freiras) e já estava até achando que eu levava jeito com comportamento admiráveis, o que, pensei também, me fariam aumentar as chances de arrumar uma legítima sogra, um sogro que me ofereceria charutos e uma jovem cunhada gostosinha, no ápice de sua adolescência, com os pêlos ralos e a vontade de dar, à mil. Orgulhei-me, pensei no papai, na mamãe e em todos que sempre me taxaram de obscenidades impróprias. Esperei aquele rabo voltar e já previa nossos braços se cruzando, nossas pernas se perdendo, eu encontrando as dela, ela, achando as minhas e confidências sendo trocadas exaustivamente em forma de sussurros apoteóticos e temperados pelo álcool. Pedi mais um chopp e acendi um cigarro. A mente viajava e, juro, notava-se um certo ar de felicidade para com a minha compostura. Notei uma certa demora...achei que pudesse ter acontecido algo, sei lá. Não lembro muito bem, a mente praguejava conflitos em meio à alegrias eufóricas. O garçom apareceu com mais dois chopps quando um torpedo cortou meus lacrimejos mentais: “Desculpe, realmente me confundi com você. Acho que não temos muito a ver. A conta está paga e deixei você com direito a mais 5 chopps. Bjs”. Estático e incrédulo olhei pro lado e a da mesa vizinha ainda tentava esboçar alguma reação. Solicitei um pedaço do pastel dela, pedi uns trocados pra comprar uns varejos e se ela me pagava uma cerveja em lata, ao ambulante do lado de fora, quando terminasse meus 5 chopps pelos quais tinha direito. De vez em quando ela me dá “bom dia” ao pé do ouvido, sussurra que deixou cerveja na geladeira e um maço de cigarros na sala, enquanto se arruma pra trabalhar.
Odeio essa minha timidez.
Odeio essa minha timidez.

Um comentário:
oi!! gostei MUITO daqui..
preciso voltar com mais tempo pra ler tudo com calma...
acho que vou te ler de madrugada, com calma...
beeeeem devagar.
beijo
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