Porque ao mesmo tempo que, sem reclamar, dou cigarros e moedas à esses moleques de rua, pensando que só assim, quem sabe, como ratos, se disseminam, aniquiliam, se contaminam (como eu) e vão-se embora mais cedo, deixando-nos livre dessas pestes, também tenho, às vezes, vontade de pegá-los pela camisa (quando os tem) e falar: “Porra, moleque. Tu não enxerga isso? Não enxerga que eles querem isso? Que vocês se matem? Que a gente se mate? Não possuem o mínimo de noção em ver que eles estão pouco se lixando pra vocês? Quanto menos, melhor?”Fico indignado e entendo que não tiveram suporte psicológico, familiar, ninguém que servisse de algum tipo de alicerce para que observassem a situação em geral. Entendo que são vítimas e reféns – assim como nós – dessa maquinaria toda que existe por trás de promessas de melhorias e sorrisos na face. Compreendo que cresceram assim, tendo como base “heróis” que remam na contramão, contraventores de esquinas que se vangloriam por qualquer moeda excedente, fazendo-os crer que somente cenas assim, ações do gênero e atitudes similares é que os fazem ser vistos. Precisam de uma luz de palco neles e somente assim, conseguem.
Mas, porra, custa tentar fazer um mero esforço e adivinhar que querem que ajam assim? Que o cara que cheira, que esfola a porra do organismo no crack, que entope de benzina a mente, que alimenta o vício enganando a fome, é, na verdade, a peça principal pra que as coisas continuem assim? É o pseudo-ator que, nas cenas em que gesticula, o fazem crer que a “onda” é essa, que a “glória” e a salvação estão nos passos que dão? Porra, atitude companheiro, atitude!!!!!
Tente fazer o inverso, tenta de alguma maneira caminhar em outra direção, quem sabe assim, fodendo os de lá de cima, reais donos de todas as mercadorias por ti – nós? – consumidas. Dá a cara pra bater, o bote, o “perdeu”, o “ não reage” e o “fica quieto” neles, não em nós – eu e você – todos vítimas e alvos deles, sem exceção.
É foda dar o primeiro passo na direção contrária quando a massa toda vem em sua direção. É punk remar contra, tendo apenas como escudo a porra do remo manual, enquanto a cidade pulsa cegueira corporativa e te engole, te atropela, te amassa e te cospe nos bueiros e canteiros da esquina. É triste a admissão dos pontos perdidos.
Mas, foda-se. Quem sabe um dia, quando pararmos de apontar nossos fuzis um ao outro, quando quebrarmos os espelhos e decifrarmos que por trás deles existe vida, quando ousarmos audácias em gestos abusados, re-mirando e re-buscando os verdadeiros alvos atrás de babacas engravatados dando segurança a imbecis egoístas que reinam sentados em frente ao ar-condicionado enquanto fumam charutos e arrotam espumantes, a gente não dê a demão final, deixe as porras das máscaras caírem e mostre que, apesar da cara de babaca e da bunda na janela, ainda temos parcos pensamentos em prol de um todo.
A decisão final será nossa, só nossa.

2 comentários:
ninguém pode ser perfeito mesmo...
ahahahha
gostei desse desabafo. incrível como nosso egoísmo deixa as coisas mais práticas né?
eles existem aqui nas ruas. Eles existem lá no Brasil. e nós ficamos fingindo de "ilesos" num mundo a parte, onde políticos, polícia, tráfico,meninos de rua... são só personagens de um filme sensacionalista com alta bilheteria.
legal sua visão.
pena que nem que o mundo inteiro lê-se... quase ninguém conseguiria ver.
abracinho apertado!
então, se eu não podia me avisa que eu tiro oquei?
abracinho
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