
A Dona Laurinda sempre reclama quando forneço um cigarro pro Luiz, parasita do 101. Diz que eu alimento o vício dele. Ué, o que ela tem a ver com isso? O cigarro é dela? O pulmão é dela? É filho dela? Então porque ficar tomando conta da vida dos outros?
Luiz é esquizofrênico e possui tiques nervosos, faz caretas inconscientemente e anda meio de lado, quase caindo. Tudo isso é reflexo da quantidade de drogas que ele usou na infância. Luiz ainda é “novo”, deve beirar seus 35, 36 anos e, óbvio, é desempregado. Fica andando por aí, miserando pequenos vícios aos transeuntes que circulam.
Devido à sua postura, em grande parte das vezes assusta as pessoas. Eu já me acostumei mas quem não o conhece, se amedronta. A meu ver, sem motivo algum.
As pessoas também assustam. Os considerados “normais”, também assustam. Soa hipocrisia sob minha visão. Também me assusto quando vejo a loira do 204 indo à praia. Ainda mais quando cisma em colocar somente aquele minúsculo biquíni de cor bonita, indo de encontro aos moldes de seu corpanzil. O mauricinho do 701 também me assusta quando coloca aquele som alto em seu carro. As letras são medonhas e a dançinha que ele faz com a cabeça, no mínimo, petulante. A filha da síndica é outra. Seu vestuário deixa pra trás qualquer abre-alas de escola de samba - que tenha em seu enredo o conceito: ridículo - no chão. O namorado dela caminha junto. Suas camisas de micaretas, com patrocínio da FM o dia, aliado àquelas tatuagens de dragão feroz, pitbull nervoso e tribais: “felicidade”, “ paz e amor” e “Jesus tá vindo”, fazem deles, juntos, um quadro vergonhoso e serial killer.
Mas voltando ao assunto, Dona Laurinda insiste em afirmar que enquanto prosseguir dando cigarros para o Luiz, eu não o estimularei a parar com tais atos mendigantes. Largo um suave e prozaico: Foda-se, orientando-a a perguntar a ele se o mesmo deseja cessar com tais gestos. Que mania mafuá, caraleo!! Aliás, Dona Laurinda mesmo me causa arrepios. Certa noite, vindo de uma festa mamadão de cachaça, entro cambaleante pela portaria que nem bolinha de pinball. Derrubei um quadro tosco e cafona da parede direita e, pra não cair, me equilibrei nas samambaias que se postam do lado esquerdo, desfolheando-as todinhas, quase praticando uma mini cirurgia gangrenar nas coitadas. Odeio plantas. São sem graça. Não se mexem, não falam, não andam, não chamam a atenção, não fumam. Não-nada. Nadaoriginalins Sem Graçis PraDedéu. São iguais a peixes e pássaros. Não fazem nada a não ser, nada. Se sumirem do planeta, pouca gente vai dar falta. Quer apostar?? Mas, continuando, quase chegando ao elevador, escuridão de dar medo a qualquer panteão, sinto um vulto prostrado no banco do corredor que dá no hall dos elevadores quando percebo aquele pedaço de Ângela Bismarchi atropelada com Elke Maravilha às avessas, vindo em minha direção. Ahhhhhhhh!!!! Porra, Dona Laurinda. Tá tarde, o que a senhora faz acordada a essa hora e aqui. Porque não está em casa deitado na barriga de seu marido? Deu-me um susto. Tentei me manter sóbrio mas foi em vão. Ela sente o odor etílico invadindo o ambiente e, como se fosse a coisa mais normal do mundo àquela hora, ela solta: Não entendo como você continua dando cigarros ao Luiz. Ele já sofreu muito com as drogas e, fazendo isso, você só alimenta o vício dele. Mas que merda, eu também não entendo como o marido dela a agüenta esse tempo todo ou passo a entender porque no lixo deles, reina sempre caixas de caninha 51 e conhaque. É o único jeito, concluo.O elevador chegou e me despedi de Dona Laurinda com um simpático: Boa Noite senhora. Durma bem e que a paz lhe acompanhe. Sou um gentleman nas horas bêbadas. Mesmo após o susto da septuagenária, consegui sustentar um pouco da educação infantil de subúrbio e me despedi de forma honrosa. Mas, enfim. Continuarei fornecendo cigarros e álcool pro Luiz quando o mesmo me encontrar. Acho que faço um bem pra humanidade. A cada cigarro doado, é um dia a menos dele na face desta obscura terra. De que adianta o lamuriado fazer hora extra por cá, infeliz, sem poder desfrutar do pouco de vício que lhe resta? Acho mais válido e digno, prestar-lhe o favor de diminuí-lo nesse martírio em que vivemos e ainda alegrá-lo. É tão sincero o sorriso de um drogado. É real, intenso, mágico e delirante. Me sinto bem quando cometo tal ato. Te juro. É mesma coisa quando saio do almoço tomando meu diário mate. Basta eu sair da galeria e me vejo com dezenas de muleques de rua implorando:
Luiz é esquizofrênico e possui tiques nervosos, faz caretas inconscientemente e anda meio de lado, quase caindo. Tudo isso é reflexo da quantidade de drogas que ele usou na infância. Luiz ainda é “novo”, deve beirar seus 35, 36 anos e, óbvio, é desempregado. Fica andando por aí, miserando pequenos vícios aos transeuntes que circulam.
Devido à sua postura, em grande parte das vezes assusta as pessoas. Eu já me acostumei mas quem não o conhece, se amedronta. A meu ver, sem motivo algum.
As pessoas também assustam. Os considerados “normais”, também assustam. Soa hipocrisia sob minha visão. Também me assusto quando vejo a loira do 204 indo à praia. Ainda mais quando cisma em colocar somente aquele minúsculo biquíni de cor bonita, indo de encontro aos moldes de seu corpanzil. O mauricinho do 701 também me assusta quando coloca aquele som alto em seu carro. As letras são medonhas e a dançinha que ele faz com a cabeça, no mínimo, petulante. A filha da síndica é outra. Seu vestuário deixa pra trás qualquer abre-alas de escola de samba - que tenha em seu enredo o conceito: ridículo - no chão. O namorado dela caminha junto. Suas camisas de micaretas, com patrocínio da FM o dia, aliado àquelas tatuagens de dragão feroz, pitbull nervoso e tribais: “felicidade”, “ paz e amor” e “Jesus tá vindo”, fazem deles, juntos, um quadro vergonhoso e serial killer.
Mas voltando ao assunto, Dona Laurinda insiste em afirmar que enquanto prosseguir dando cigarros para o Luiz, eu não o estimularei a parar com tais atos mendigantes. Largo um suave e prozaico: Foda-se, orientando-a a perguntar a ele se o mesmo deseja cessar com tais gestos. Que mania mafuá, caraleo!! Aliás, Dona Laurinda mesmo me causa arrepios. Certa noite, vindo de uma festa mamadão de cachaça, entro cambaleante pela portaria que nem bolinha de pinball. Derrubei um quadro tosco e cafona da parede direita e, pra não cair, me equilibrei nas samambaias que se postam do lado esquerdo, desfolheando-as todinhas, quase praticando uma mini cirurgia gangrenar nas coitadas. Odeio plantas. São sem graça. Não se mexem, não falam, não andam, não chamam a atenção, não fumam. Não-nada. Nadaoriginalins Sem Graçis PraDedéu. São iguais a peixes e pássaros. Não fazem nada a não ser, nada. Se sumirem do planeta, pouca gente vai dar falta. Quer apostar?? Mas, continuando, quase chegando ao elevador, escuridão de dar medo a qualquer panteão, sinto um vulto prostrado no banco do corredor que dá no hall dos elevadores quando percebo aquele pedaço de Ângela Bismarchi atropelada com Elke Maravilha às avessas, vindo em minha direção. Ahhhhhhhh!!!! Porra, Dona Laurinda. Tá tarde, o que a senhora faz acordada a essa hora e aqui. Porque não está em casa deitado na barriga de seu marido? Deu-me um susto. Tentei me manter sóbrio mas foi em vão. Ela sente o odor etílico invadindo o ambiente e, como se fosse a coisa mais normal do mundo àquela hora, ela solta: Não entendo como você continua dando cigarros ao Luiz. Ele já sofreu muito com as drogas e, fazendo isso, você só alimenta o vício dele. Mas que merda, eu também não entendo como o marido dela a agüenta esse tempo todo ou passo a entender porque no lixo deles, reina sempre caixas de caninha 51 e conhaque. É o único jeito, concluo.O elevador chegou e me despedi de Dona Laurinda com um simpático: Boa Noite senhora. Durma bem e que a paz lhe acompanhe. Sou um gentleman nas horas bêbadas. Mesmo após o susto da septuagenária, consegui sustentar um pouco da educação infantil de subúrbio e me despedi de forma honrosa. Mas, enfim. Continuarei fornecendo cigarros e álcool pro Luiz quando o mesmo me encontrar. Acho que faço um bem pra humanidade. A cada cigarro doado, é um dia a menos dele na face desta obscura terra. De que adianta o lamuriado fazer hora extra por cá, infeliz, sem poder desfrutar do pouco de vício que lhe resta? Acho mais válido e digno, prestar-lhe o favor de diminuí-lo nesse martírio em que vivemos e ainda alegrá-lo. É tão sincero o sorriso de um drogado. É real, intenso, mágico e delirante. Me sinto bem quando cometo tal ato. Te juro. É mesma coisa quando saio do almoço tomando meu diário mate. Basta eu sair da galeria e me vejo com dezenas de muleques de rua implorando:
- Me dá um pouco aí, tio?
- Coe, Tio, na humildade e no proceder, será que você pode me dar um pouco desse mate?
- Aí, parceiro, tem condições de me pagar um mate “desse”?
- Senhor, com todo o respeito e sob a luz divina ( juro que já ouvi isso), teria condições de me dar o que o senhor não vai beber??
Ah, a humanidade e suas reles criaturas. Como ele sabe que não vou beber? Ou, porque desconfia disso? Se comprei o mate, no mínimo, é porque penso em bebê-lo. E ainda dizem que a educação não chega aos mais humildes. Como ousam? É muita educação pra pouca beleza. O Rio deve causar inveja no Primeiro Mundo. Duvido que por lá existam moradores de rua. E, se existirem, que chegam a esse patamar de educação. Pois bem, após tomar num só gole metade do copo, dôo de forma exemplar, civilizada e de conduta aplaudível, a segunda metade de meu mate a eles e começo a assistir as cenas de embate e vale-tudo. É tudo de bom. Eles se debatem como frangos à beira dos tonéis quentes. Trocam socos e galanteios impronunciáveis enquanto assisto a tudo parado, abismado e encantado com a imagem. Circo de Soleil que se cuide. Matéria prima nós temos, resta ensinarmos a arte e pra que ela serve. Mas voltando, ao dar cigarro ao Luiz, me sinto motivado e útil à sociedade. Um dia a menos pra ele. Pros camundongos de rua, digo, pros “dimenor”, tenho a sensação parecida. Dando-lhes de comer, sinto-me alimentando-os de esperança e fazendo com que continuem sobrevivendo. Só assim pra que eles continuem a me encher de cenas de um futuro melhor, tipo essa balela de criança esperança, sabe? e achar que isso tudo vale a pena. Cá pra nós, é bem melhor do que se vivêssemos em ruas arborizadas, sol cintilante, dondocas em pleno vapor destinando-se aos shoppings, os mauricinhos com seus músculos torneados em academias caras, as patricinhas em seus salões de elite, pintando as unhas, fazendo luzes, cílios, camuflando as rugas, mapeando as celulites, os restaurantes lotados de gente classe A, os senhores em seus charutos cubanos, em seus papos sobre a bolsa, as esposas comentando a última estadia em Londres, Parrí, Bruxelas, NY, Miami, Califórnia, as crianças, saudáveis que só, indo e vindo, comendo sorvete caramelizados com flocos crocantes e distraindo-se em seus portáteis de última geração...
Ah, que coisa chata e sem graça. Tons pastéis acinzentados dão mais glamour e valorizam mais nossas vidas. Que venham mais camundongos, ratos, ratazanas. Que portem seus fuzis e de forma sorrateira, invadam de forma contínua os palácios da cidade e seus indivíduos alheios a tudo. Que prossigam com seus teatros de terror, furtando, roubando, assaltando as Donas Laurindas da vida e seus filhos de plásticos. Que sacuda tudo isso e mostre a Ele que uma descarga lá de cima é mais que urgente. Põe todo mundo pra nadar. Salve-se quem puder. Só sei que me sinto bem alimentando os pueris sonhos desses pequeninos animais. Faz bem a flora, a fauna e a todos nós. Tons pastéis e branco acinzentado serão o must da próxima estação. Você vai ver.
Agora, deixa eu ir que o Luiz já me viu do outro lado da rua e tá chegando pra me pedir mais cigarro.
Ah, que coisa chata e sem graça. Tons pastéis acinzentados dão mais glamour e valorizam mais nossas vidas. Que venham mais camundongos, ratos, ratazanas. Que portem seus fuzis e de forma sorrateira, invadam de forma contínua os palácios da cidade e seus indivíduos alheios a tudo. Que prossigam com seus teatros de terror, furtando, roubando, assaltando as Donas Laurindas da vida e seus filhos de plásticos. Que sacuda tudo isso e mostre a Ele que uma descarga lá de cima é mais que urgente. Põe todo mundo pra nadar. Salve-se quem puder. Só sei que me sinto bem alimentando os pueris sonhos desses pequeninos animais. Faz bem a flora, a fauna e a todos nós. Tons pastéis e branco acinzentado serão o must da próxima estação. Você vai ver.
Agora, deixa eu ir que o Luiz já me viu do outro lado da rua e tá chegando pra me pedir mais cigarro.

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