terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Um dia você se acostuma ao décimo terceiro e ao décimo quarto, enquanto engole o décimo quinto sapo. Você se habitua à conta quase sempre positiva, ao fechamento no final do mês, plano de saúde de Enfermaria, previdência privada mínima e bônus de Natal. Um dia você se pega na fila do self service com seu ticket refeição, mugindo, deglutindo um resto de picadinho de segunda e suando, em meio ao barulho de talheres e à conversa desinteressante dividida por outros. Um belo dia, você deixa de comprar livros porque não tem mais tempo para ler, e deixa de ouvir música porque desconcentra suas atividades pouco criativas. Um dia, é preciso jogar fora muito de si, pois falta espaço no armário para travesseiros macios e edredons de 400 fios. Um dia, você mostra os dentes a quem daria as costas, faz serão quando faria arte. Arte. E que arte? Agora assistida e não mais criada, observada e não mais vivida? Um dia, você se torna um espectador patético do que se tornou sua vida. Passa a preencher as horas planejando o óbvio, e ninguém ao menos nota – mas você sabe quando chega a este ponto... Então disfarça, ri, toma mais uma cerveja morna. E não mais arrisca; já não sai sem rumo, não mais se vai. Sem asas, arrasta-se pelos vãos, agarrando-se a acumulações inúteis. Então vem a mediocridade e seu espírito fraqueja. Já não há luz. Mas você se acostuma – à tolerância, à submissão, ao dedo na garganta no final de um dia que nunca, nunca acaba. Não mais poesia, mas a prosa vomitada ácida, incontida. E uma úlcera que não sara. Pois chega este dia, em que você nem se lembra de quem é, de quem foi e do que poderia ter sido, “se...” - este “se” feito de um acaso que sequer existe. Então você já não grita – para que(m)? Chega o momento em que estamos irremediavelmente perdidos. Neste dia, procuro e não lhe reconheço; procura-me, mas não me encontra. Já não somos mais.

KG (18/08/08)
Tirei daqui. Melhor que som bom no ouvido.

Um comentário:

Sentimental ♥ disse...

putz, a gente se acostuma a tanta coisa q começa a perder a noção do q é bom e ruim...
beijos