terça-feira, 1 de julho de 2008


Passaram-se dois anos desde a última visita aquele local lindo. Precisava de calma e nada mais apropriado que a Rodrigo de Freitas. Bucólica cena.

Fechou os olhos e lembrou da última vez, quando acompanhado do filho e da ex-esposa, caminharam os três de mãos dadas enquanto o sol refletia na água presenteando-os com esplêndida visão.

Parecia ontem que tinha ensinado o pequeno a andar de bicicleta. A felicidade na face do garoto o tornara o pai mais feliz do mundo. Ele e a esposa abraçados e sorrindo aplaudindo mais um desafio vencido pela criança. Ele crescera e nem parecia mais aquele bebê recém chegado a vida. Em seu rosto agora figuravam traços marcantes onde não restavam dúvidas das semelhanças com ele e esposa.

Mal acreditava que naquele dia estava a sós. Solitário e solteiro. A esposa o trocara por um cara mais velho e muito mais bem sucedido que ele. Sofria a cada vez que lembrava dela. Não satisfeita, ainda levou seu muleque, ganhando a causa em uma época que ficara desempregado.

Foi difícil. Entrou em depressão e achou que nunca mais fosse se recuperar. Graças a um amigo fez terapia em um dos mais renomados psiquiatras e com isso retomou a vontade de viver. Conseguiu se recuperar psicologicamente e novamente equilibrado, arranjou um excelente emprego onde ganhava muito bem.

Agora solteiro, bem de vida e morando sozinho, passou a confiar em si mesmo. Entrou em uma academia e recuperou a saúde, além de um belo corpo.

Recordava-se do tempo de criança. Imagens de quando menor tomavam sua mente de assalto. De infância pobre, perdeu os pais em um acidente de carro quando tinha cinco anos. Dois anos antes, já tinha perdido a irmã em decorrência de uma malária, normal para o local e as condições em que viviam.

Fora criado por uma tia de origem humilde, que lhe dera uma criação muito rigorosa. Perdeu-a quando tinha seus vinte e sete anos. Recém-formado e tendo que se virar sozinho, sofreu horrores nos anos seguintes onde se sujeitou as piores tratamentos na empresa onde trabalhava em troca de míseros trocados ao fim do mês. Estudou mais ainda e com muito sacrifício pós-graduou-se, alcançando assim um emprego melhor, agora sim, digno.

Foi nesse emprego que conheceu sua ex-esposa, uma funcionária que fazia parte da equipe que supervisionava. Casaram, tiveram seu herdeiro e andaram algum tempo felizes. Ou achava que assim eram, até descobrir que sua companheira, mãe de seu filho, tinha um caso com um diretor da empresa. Pirou e entrou em desespero. Como se não bastasse, foi mandado embora após tramarem contra ele.

Foi ao fundo do poço.

- Como pode uma família tão bonita e feliz se acabar em tão pouco tempo, da noite para o dia???

Desesperado, passou a pensar nas piores coisas que um homem pode imaginar. Acovardou-se e se não fosse por esse amigo e seu devido tratamento, não saberia onde estaria.

O dia estava belo. O vento balançava seu cabelo e trazia lembranças de dois anos atrás. Tinha saudades de seu filho. Como será que ele estava? Permanecia com aquela saúde de ferro, sempre dando trabalho aos responsáveis de seus cuidados? Será que ainda continuava com os traços paternos? E na aula, será que era bom aluno??

Uma vontade absurda de abraça-lo fez com que seu rosto ficasse angustiado, fechado.

Pôs-se a chorar.

Lembrava de sua ex com muita raiva. Como uma mulher tem o poder de destruir com a vida de um homem? Ela não tinha esse direito. O ódio o cercou naquele instante e caso se deparasse naquele momento com a figura da dita cuja, era capaz de matá-la. Com as mãos.

Mas não!!! Seu amor por ela ainda era maior que tudo!! Mesmo depois do que passou, ainda tinha a coragem de esquecer tudo e aceitá-la de volta. Bastava uma simples desculpas por parte dela. Porém a realidade era outra e uma buzina de um veículo que passava despertou-o daquele doloroso transe e o trouxe à tona.

- Porque não consigo esquecê-la meu Deus?? Já conheci diversas mulheres após isso mas nenhuma capaz de apagar meus sentimentos do passado...Sou solteiro, ganho bem, moro em um excelente apartamento, tenho um cargo invejado, carro do ano e ainda assim sou infeliz. Me ajuda Pai...!!

O desespero tomava conta de seu corpo. A angústia o preenchia e sem perspectivas de melhoras, enlouqueceu.

Um vendedor de picolés se assustou com tamanho sofrimento em sua cara. Mal percebera um casal alegre que lhe cruzara de patins. Ao lado, despreocupados, dois meninos de rua cheiravam em paz suas respectivas resinas. Não prestou atenção em uma bela jovem de mais belo corpo que passeava com seu cão. O mundo caía sobre seus ombros e o peso e a dor que sentia era algo indescritível. Uma dupla de idosos passou despercebido em sua caminhada.

Não tendo muita noção de seus atos e passo, correu em direção a pista. Atravessou um gramado onde crianças jogavam bola. Sua velocidade aumentava e em sua maratona sem pódio olhou pro alto e acompanhou o vôo solitário de uma gaivota e, antes de voltar seu olhar para baixo, em silencio pediu perdão a Deus.

Se atirou embaixo do primeiro carro que passava em altíssima velocidade. Sem tempo de frear, o motorista de uma Mercedes preta recém-saída da concessionária o acertou em cheio, exterminando qualquer pensamento de sobrevivência.

Com o carro praticamente destruído, seu condutor saiu do pouco que sobrou de seu motorizado e desesperadamente começou a pedir socorro.

Em vão. Morte instantânea.

Dentro do veículo, a ex-eposa e o filho da vítima...

Nenhum comentário: