Sim, minha família por parte mãe é do subúrbio. Subúrbio do qual tanto adoro e me orgulho. Passei parte de minha infância por lá, quando ia visitar meus avós finaldesemanalmente . Anos depois, pós-pré-adolescência e logo depois de ganhar meu irmão por parte materna, fui morar lá, já que minha mãe ficaria mais próxima dos pais e irmãos dela, avós e tios meus.Aprendi muita coisa, perdi muita coisa e ganhei inúmeras outras. O saldo final foi, sem dúvidas, positivo. Troquei o ventilador e a varanda do décimo andar do Grajaú, pela liberdade por becos e vielas entre idas e vindas do calor infernal suburbano. Troquei o judô da escola da época, na Tijuca, pelas brigas de rua e o aprendizado de se virar sozinho caindo na porrada, levando e dando, sempre que preciso. Troquei os lazeres no play pelo pé no chão – com direito a topadas e unhas extraídas sem anestesia pelo asfalto quente – e pipa no alto. Troquei a preferência de ganhar aquele vídeo-game da época por poder voltar depois da meia-noite daquela festinha do “Catatau” – um dos inúmeros apelidos que só encontramos em locais do gênero – sozinho e com o resto da galera.
Aprendi a respeitar os mais velhos, mesmo os que fossem poucos anos acima de mim. Aprendi a valorizar as amizades e mantê-las.
Aprendi e entendi que posso ter um tênis novo e branco, de marca e da moda, mas que isso não me torna melhor que o vizinho que vai a mesma festa de kichute e bermuda rasgada.
Aprendi a entender a alegria da vizinha ao receber uma boneca simples, imóvel e dura enquanto eu vivia reclamando que meu carrinho de controle-remoto estava sem pilha.
Aprendi e tive a oportunidade de absorver isso que, Graças a Deus, será levado para sempre em minha vida, seja com sobrinhos, primos ou filhos.
Aprendi a identificar sorrisos sinceros, verdadeiros e diferenciá-los dos forçados e falsos.
Aprendi a dividir antes mesmo de querer “ter” ou “ser”. Aprendi a olhar pro lado e ver a vida dos que me cercam, antes de reclamar da falta de algo. Esqueci até do Guaraná Tai quando passei a tomar gosto pelo Tobi. Esqueci do Fandangos e do Zambitos quando passei a curtir as Pipocas Frank. Os controles de vídeo-game foram completamente esquecidos quando fui apresentado ao charme e simplicidade de um iô-iô ou uma bolinha de gude.
Aprendi a ir à praia com o dinheiro contado de ida e volta apenas, assim como passei a entender que um calote meu e de todos os amigos somados – geralmente na ida – significava um refri de dois litros e alguns pães com mortadela fatiada.

Aprendi que meus pais são humanos comuns e que não podia me garantir somente neles. Aprendi a ter jogo de cintura e me “encaixar” entre a escada e a roleta dos ônibus quando estes, indo à Cidade, passavam completamente lotados. Aprendi a “manha” de dormir nos bancos dos mesmos sem que me “entortasse” ao levantar. Aprendi a andar de trem, Kombi e até a pé, acredite.
Aprendi a reconhecer maldade nas atitudes alheias. Aprendi a “maldar” gestos e ações das pessoas nas ruas. Aprendi tanta coisa que faculdade alguma me ensinaria....
Tem dez anos que voltei a “Zona Sul”, como os de lá dizem, e confesso que preciso corrigir determinadas coisas que o cotidiano do lado de cá fez questão de me “contaminar”. Tem dez anos que “voltei” mas, nunca, sem deixar de passar um final de semana por mês por lá. Preciso re-consertar muita coisa mesmo mas certeza tenho de que o essencial, a índole, o comportamento e o respeito – este, raro hoje em dia – ficará pra sempre tatuado aqui dentro. Isso ninguém tira. O compromisso do que é saber ser humano e o papel dele dentro de uma, dita, sociedade.
Não tem verde-azuis
Não tem frescura nem atrevimento
Lá não figura no mapa
No avesso da montanha, é labirinto
É contra-senha, é cara a tapa
Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Olaria
Fala, Acari, Vigário Geral
Fala, Piedade
Casas sem cor
Ruas de pó, cidade
Que não se pinta
Que é sem vaidade
Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança funk, o rock, forró, pagode,reggae
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Desbanca a outra
A tal que abusa
De ser tão maravilhosa
Lá não tem moças douradas
Expostas, adam nuas
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas
Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Pavuna
Fala, Inhaúma
Cordovil, Pilares
Espalha tua voz
Nos arredores
Carrega tua cruz
E os teus tambores
Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança funk, o rock, forró, pagode
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Fala no pé
Dá uma idéia
Naquela que te sombreia
Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdi em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim da linha
É lenha, é fogo, é foda
Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Encantado, Bangu
Fala, Realengo...
Fala, Maré
Fala, Madureira
Fala, Meriti, Nova Iguaçu
Fala, Paciência..."





















